Dia da Vitória: Histórias de Leningrado e do Zenit durante a II Guerra Mundial
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Leningrado e Zenit durante a II Guerra Mundial. Em conjunto com os habitantes da cidade, os jogadores viveram o horror da Guerra – As bombas, a fome, as batalhas sangrentas e a fuga da cidade. Leiam algumas das histórias contadas por pessoas que viveram esses eventos. Para que nunca seja esquecido!

Verão – Outono 1941

Pietr Dementiev, avançado do Zenit de 1941-1943 e durante a Guerra evacuado para Kazan
- Era 1941 e mais uma vez o Zenit estava no grupo A do campeonato da URSS. O treinador da equipa era Konstantin Lemeshev. Juntamente com o Zenit visitei Kiev em Maio de 1941 e a 22 Junho tínhamos de jogar frente ao Dinamo Moscovo (na verdade o jogo era frente ao Spartak Kharkiv). Mas esse jogo já não se realizou. Foi aí que começou a grande Guerra Patriótica. Os jogadores do Zenit e as suas famílias foram evacuados para perto de Kazan.

Lazar Kravets: defesa e médio do Zenit entre 1946-1956. Durante a Guerra fez parte das forças de reconhecimento
- Pouco após o início da Guerra nós os estudantes fomos enviados para cavar valas anti-tanques junto ao rio Oredezh mas subitamente os tanques alemães já estavam lá próximos. Era um dia quente, e fugimos todos sem t-shirts no corpo. Voltamos todos para casa só com os calções. Na altura pensávamos – “que sorte em termos conseguido escapar”. Na altura ainda não imaginávamos como seria viver aquilo.

O dia do início do bloqueio eu lembro-me muito bem. Eu e os rapazes saiamos de teatro “Pravda” onde tínhamos ido ver o filme Chapaev e o céu estava completamente negro com as bombas Alemãs. Eles bombardearam a cidade e os armazéns. Quando tens 16 anos sempre parece que as coisas são menos graves, que não nos devemos preocupar. Mas o sentimento do perigo constante rapidamente se tornou um hábito para nós.

Nicolai Abrosimov: futebolista do Zenit entre 1945-1947, militar durante a Guerra
- Eu tinha um amigo, Kolya Lapeka, com o qual tinha tinha ganho o campeonato de Leningrado em 1940. Ainda antes da Guerra ele foi convidado para o Zenit e na altura foi convidado para ser evacuado para Kazan, mas no último momento mudou de ideias e juntou-se às milícias. Eles estavam nos arredores e ele nunca mais viu a cidade. Foram atingidos por artilharia de um tanque e ninguém que estava no carro sobreviveu.

Eu preenchi várias vezes o pedido para ser transferido para a frente de batalha mas foi sempre recusado. Os Nazis detestavam-nos por causa dos dirigíveis aeróstatos. Eu percebia-os. Com pouca visibilidade os balões eram mais perigosos do que as antiaéreas e por várias vezes levaram a acidentes.

Inverno 1941-1942

Lazar Kravets
- Quem nunca passou fome não sabe o quão terrível é. Sobreviver à custa de um pão normal era impossível. Eu já não conseguia habituar-me aquele pão que me causava dor no estômago. Mas por vezes conseguia troca-lo no mercado Kuznechnyy pereulok por um pão amassado. Eu depois consegui um trabalho na tipografia Volodarsky e trabalhando lá aprendi uma série de receitas muito úteis: como cozinhar um cinto, como fazer uso eficiente do amido ou como fazer uma grande iguaria com cola dos livros. Tudo muito nutritivo mas mesmo assim queria comer constantemente.

Anatoly Vasilyev, avançado do Zenit (1962-1966) e residente durante o bloqueio a Leningrado.
- Eu tinha 9 anos quando começou a Guerra. A minha mãe passou a servir na defesa. Na primeira e única vez que a minha mãe se atrasou para o serviço o edifício onde ela trabalhava foi atingido por 3 bombas e todos os seus amigos morreram. Muitas vezes antes eu queria ter roubado pão mas na primeira vez que o tentei fazer no mercado fui apanhado e espancado com uma rédea. Agradeço não ter morrido. A lição no entanto aprendi bem. Nunca mais tentei roubar.

A evacuação

Fridrikh Maryutin, avançado do Zenit (1947-1956) durante a guerra, militar em Sverdlovsk
- Eu tentei muitas vezes ir como voluntário para a frente de batalha mas na nossa fábrica não haviam suficientes trabalhadores qualificados. Eu afiava partes de peças para armas antiaéreas. Oficialmente o dia de trabalho era de 12 horas mas a verdade é que normalmente tinha de trabalhar muito mais horas. No início eu não tinha sorte com as pessoas que trocavam o turno comigo. O primeiro não aguentou aquelas condições de vida e morreu e o segundo desapareceu. Depois enviaram mais alguns mas eles em vez de fazerem as 10 peças por turno que era o planeado só conseguiam fazer 2 ou 3. Portanto era preciso trabalhar mais horas e dormir junto à própria máquina umas 5 ou 6 horas e depois voltar a trabalhar. As novas instalações foram construídas à pressa, sem condições e por isso estava sempre muito frio. Os dedos literalmente congelavam e mesmo com luvas partes dos dedos perdiam a sensibilidade.

Pietr Dementiev
- Em Kazan os antigos jogadores do Zenit trabalhavam a cortar madeira e a construir barracas para as famílias dos trabalhadores fabris. A vida era difícil, passava muita fome, tal como todas as pessoas daquela época.

Jogo do Bloqueio

Valentin Fedorov, jogador do Dinamo Leningrado. Durante a Guerra era detective no combate à violência dos gangues
- Na Primavera de 1942 eu fui chamado para o departamento militar do comité do partido na cidade e o chefe do departamento perguntou quem tinham sido os jogadores que tinham ficado na cidade. Vendo que estávamos todos confusos ele explicou que a Frente Militar tinha decidido fazer uma partida e que na verdade davam muita importância e esse jogo. A missão era difícil. Da equipa do Dinamo Leningrado 6 jogadores foram para Kazan, 4 morreram, Bizyukov estava seriamente ferido e tinha sido evacuado. Apesar de tudo recrutar jogadores não era o mais difícil. Mas como jogar quando estávamos todos demasiado fracos até para andar? Mas gradualmente apareceram jogadores e começamos a treinar duas vezes por semana.

Alexander Zyablikov - capitão de uma das equipas do jogo do bloqueio
- Dos jogadores que antes da Guerra jogavam no Zenit já não restavam muitos no Inverno de 1942. Quase todos nós trabalhávamos nas fábricas. Portanto não pensávamos em futebol naturalmente. Em Maio eu encontrei na rua um antigo jogador do Dinamo Leningrado e recebi um proposta para jogarmos frente ao Dinamo. Eles propuseram jogar 2 partes de 45 minutos mas os trabalhadores da fábrica aceitaram apenas 2 partes de 20 minutos. “Vamos começar com 30 minutos” – disse eu ao árbitro. “E se então aguentarmos, jogamos os 45 minutos”
Nós não tinhamos guarda-redes pelo que na baliza jogou o Ivan Kurenkov que era defesa. Mas ainda nos faltava um jogador pelo que o Dinamo nos “emprestou” o Ivan Smirnov.

Na primeira parte ninguém vencia e no inicio da segunda parte o campo foi bombardeado. Uma das bombas do inimigo atingiu um dos cantos do estádio e os jogadores mais os espectadores, cerca de 300-350 pessoas, foram para um abrigo. Após essa “pausa” voltamos para o jogo mas não conseguimos parar o ataque do Dinamo e perdemos por um claro 6-0. Em Junho houve outro jogo. Nós tivemos na frente durante muito tempo mas o resultado final foi um empate 2-2.

Nicolai Abrosimov
- Os jogos desportivos da cidade tiveram um cenário parecido. 5 minutos após o inicio – bombardeamento. Todos nos escondemos mas o campo não foi atingido, no entanto víamos muito perto os projecteis.

Inverno 1942 - 1943

Nicolai Lukishinov, treinador do Zenit (1947-1948 , 1954-1955) e capitão durante a Guerra
- Durante os combates em Nevsky Pyatachok eu fui chamado para comandante de divisão. Era necessário entregar uma mensagem ao comandante principal sobre a localização das tropas e para isso era preciso atravessar o Rio Neva durante a noite. Isto foi no fim de Outubro, quando a temperatura da agua não é propicia para a época balnear e ainda para mais toda a superfície do rio estava iluminada e exposta ao fogo alemão. Era preciso nada quase 1 Quilometro. Comigo foram mais dois oficiais que levavam a mesma mensagem. Pelo menos um de nós tinha de conseguir entregar a mensagem ao destino. Atiramo-nos à água gelada e nadamos. O incrível aconteceu e todos nós conseguimos chegar ao outro lado, mas eu fui o primeiro. A boa forma física aumentava as nossas hipóteses de sair daquela guerra com vida.

Lazar Kravets
- A 1 de Janeiro de 1943 fui finalmente chamado. Um dos oficiais de recruta veio ter connosco e perguntou se havia voluntários e todos nós demos um passo em frente. Não foi por causa do lindo romance mas simplesmente lá éramos melhor alimentados, até pão branco havia. Foram escolhidos os mais fortes. Deviam ver a cara daqueles que não eram escolhidos.

Vladimir Savin, Treinador de Guarda-Redes na escola de futebol "Change". Na Guerra serviu em Kronstadt
- Para a frente fui chamado em Setembro de 1943, com 17 anos. Eu trabalhava a central de telégrafos em Moscovo e estava proibido de ir para o exército por ainda não ter idade. No entanto os sentimentos patrióticos eram tão fortes que eu mal esperava por atingir o inimigo e então fui ao escritório de recrutamento declarar o meu desejo de ser voluntário na marinha. O meu pedido foi aceite e então fui para Kronstadt.

As nossas missões navais são agora difíceis de explicar mas por exemplo durante a missão secreta em Oranienbaum dormir durante a noite não era possível. Imaginem as noites de Inverno, nada à volta numa linha de 12 Kms e mesmo assim nem um cigarro podíamos fumar. Alguma luz de cigarro ou de outra coisa dava logo direito a tribunal. Mas deviam ver o quão surpreendidos ficaram os Alemães quando se aperceberam que muito próximos deles estava uma enorme formação armada. Tudo foi perfeito. Muitos podem dizer que foi sorte mas a verdade é que foi uma organização perfeita.

1944

Nicolai Lukishinov
- Em Março 1944 durante a batalha pela ponte de Narva eu fui quase morto. O nosso comandante ordenou uma observação da posição do inimigo. Nós subimos às árvores durante a noite e começamos a espiar o inimigo. De manhã podia ser tudo visto. No entanto os Alemães fizeram um bombardeamento massivo quer por terra quer aéreo. Os médicos pegaram em mim quando eu já estava inconsciente e tiraram um projectil que ficou preso na minha cabeça. Após a operação o médico disse-me: “ És um sortudo! Uns centímetros ao lado e não serias salvo. Uma marca ficou na minha cabeça para a vida.

Sofia Aranovich, cheerleader do Zenit no passado , durante o cerco a Leningrado – Chefe da área de habitação
- Era a primavera de 1944 e eu fui informada de requerimentos que vinham do chefe da administração do distrito de Kozlov. Pensei imediatamente que seria para reportar atrasos na recolha do lixo ou que em algum lado, numa rua, haviam cadáveres que eram necessários retirar. Entrei na sala e não vi nenhum sinal de alegria. Apenas vi quatro pessoas sentadas à mesa. E de uma forma envergonhada o presidente disse:
“ Sofia Yusifova, eles chegaram, eles chegaram…”
“Quem? Quem chegou” – perguntei eu.
“Os jogadores do Zenit voltaram a Leningrado e as suas casas estão destruídas. Precisamos que encontres algum sítio para eles ficarem.”
Eu nem o deixei acabar e corri para ele: “É fantástico que eles estejam de volta!”…

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